Nela, Sampaio atualiza sobre o estágio do ensaio clínico de fase 1, que visa testar a segurança da substância, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro deste ano. Ela também comenta sobre as críticas que recebeu da comunidade científica e questiona a atual jornada de inovação no país, além da lentidão no avanço das pesquisas com a polilaminina.
VEJA SAÚDE: Pode nos contar em que pé está o estudo clínico com a polilaminina?
Tatiana Sampaio: O estudo foi planejado para ter um grupo pequeno, com cinco pacientes, e nossa expectativa era que acontecesse rapidamente. No entanto, a pesquisa foi proposta para ser realizada no Hospital das Clínicas da USP, e o Comitê de Ética lá não autorizou, resultando em atrasos na aprovação do início do estudo. Após uma reunião com os investigadores, houve um primeiro alarme falso de aprovação, mas, após resolução, um erro fez com que a situação voltasse atrás. Como o HC é a instituição principal para conduzir a pesquisa, tudo está parado, aguardando o avanço do hospital.
Assim que houver essa aprovação, qual é o tempo médio estimado de duração dessa fase?
Esse teste, autorizado, é de fase 1, que visa principalmente avaliar a segurança da molécula. Haverá cinco pacientes, cada um sob acompanhamento durante seis meses, mas não podemos incluir todos de uma vez. Contudo, por ser um hospital grande, que recebe muitos pacientes e é multicêntrico, imagino que em um ano seja possível captar e realizar esse acompanhamento. Entretanto, já estamos em junho e, apesar da autorização da Anvisa em janeiro, não conseguimos avançar nada até agora.
Como analisa o sistema de inovação em saúde no Brasil atualmente?
Eu diria que o Brasil é como um carro com os faróis voltados para trás. Estamos em 2026 discutindo temas que deveriam ter sido abordados há muito tempo. Parece que estamos sempre correndo atrás do prejuízo, tentando fazer nesta década o que não fizemos na passada, corrigindo erros anteriores. Aparentemente, os cientistas e médicos brasileiros estão apenas descobrindo o grupo controle, enquanto o mundo já discute questões mais avançadas.
A senhora foi criticada por seus posicionamentos sobre o grupo controle. O que teria a dizer?
Não podemos nos prender à discussão sobre a necessidade do grupo controle no estudo clínico. Há muitas questões importantes a serem discutidas posteriormente, e a comunidade se mobiliza como se isso fosse a grande questão. Precisamos nos atualizar e abrir a mente para novas abordagens.
Teria exemplos dessa tendência lá fora?
O Japão recentemente registrou uma terapia celular para a doença de Parkinson após um estudo com apenas sete pacientes, o que foi suficiente para a aprovação do registro.
Mas a discussão não se resume a isso, certo?
Não gosto muito de fazer um discurso feminista, mas acredito que é pertinente. Até quando teremos que continuar jurando fidelidade à sociedade masculina e ao modo como as coisas foram construídas? Se quisermos mudar algo, precisamos reconhecer que sabemos fazer as coisas de maneira diferente.
O que acontecerá eu não sei, mas posso garantir que, independentemente do que ocorra, será legal, autorizado pelo comitê de ética e aprovado pela Anvisa. Para obter essa aprovação, precisamos ter bons argumentos, e estamos trabalhando nisso.
Então, o que acha que é preciso fazer para colocar os faróis no lugar e iluminar o futuro da inovação em saúde no país?
É necessária uma mudança de rota, como a proposta neste encontro [promovido pela Vesper]. Precisamos de novos atores para isso. Se você vive em um sistema feudal com lideranças dominantes e decide mudar o cenário, não pode chamar os próprios senhores feudais para arquitetar essa transformação. Essa repetição de comportamento vem ocorrendo há anos. O Brasil tem feito a mesma coisa por décadas. Os senhores feudais podem ser festejados, mas não serão os artífices da revolução que precisamos.
Acredita numa revolução nessa área?
O país tem um potencial enorme. Recentemente, estive no Texas em uma visita científica e vi muitos brasileiros produzindo o melhor por lá. Investimos na formação, nosso sistema de pós-graduação é cada vez mais forte, mas continuamos exportando talentos qualificados. Precisamos pensar em soluções melhores, romper com o que sempre existiu e parar de ouvir os senhores feudais, ou não avançaremos e perderemos a oportunidade de fazer o melhor pelo futuro.
*A repórter viajou a convite da Vesper
Fonte: saude.abril.com.br
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