Além disso, há a possibilidade de um “super” El Niño, uma versão mais intensa do fenômeno, embora sua intensidade ainda seja incerta.
No Brasil, o El Niño costuma provocar períodos de seca nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul e o Sudeste enfrentam chuvas intensas. Essas condições climáticas podem gerar diversos problemas de saúde para a população.
Entre os riscos estão a contaminação da água, os efeitos do calor extremo e a proliferação do Aedes aegypti, que pode levar à disseminação da dengue e outras arboviroses (viroses transmitidas por mosquitos e carrapatos). “Todas as vezes em que tivemos El Niño, vimos um impacto importante das arboviroses“, alerta o infectologista Julio Croda, da Fiocruz e professor da UFMS.
Por essas razões, profissionais de saúde expressam preocupação com o cenário que o país enfrentará nos próximos meses. “Esses eventos trazem importantes repercussões para a saúde da população, incluindo aumento de doenças relacionadas ao calor, problemas respiratórios, doenças transmitidas pela água e por vetores, insegurança alimentar e impactos na saúde mental“, resume a médica Isadora Vianna Fernandes, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Planetária da SBMFC.
Ainda não há uma resposta definitiva. Previsões recentes da NOAA, agência climática dos Estados Unidos, estimam que existe até 96% de chances de que o El Niño se forme este ano, persistindo até fevereiro de 2027. Contudo, a classificação de sua força ainda gera controvérsias.
Os meteorologistas dividem as intensidades desse fenômeno em categorias: fraco, moderado, forte e muito forte. Enquanto alguns especialistas afirmam que as consequências podem ser imprevisíveis, outros acreditam que este pode ser um dos eventos mais fortes das últimas décadas. A médica patologista e microbiologista Evangelina Araújo comenta que “poderá ser até três a cinco vezes maior do que foi em 2023 e 2024”.
Por outro lado, previsões mais conservadoras indicam que, até agora, nenhuma das categorias concentra mais do que 37% de probabilidade, o que significa que as chances estão relativamente distribuídas entre elas. Apesar disso, as chances de um evento “muito forte” têm crescido nas estatísticas, tornando um “super” El Niño este ano uma possibilidade, mas ainda em aberto.
“Nas últimas atualizações, os modelos mostraram maior confiança de que será um super El Niño. Embora não seja 100% confiável, as probabilidades estão aumentando”, diz a geógrafa Karina Bruno Lima, doutoranda e especialista em climatologia.
Além disso, o aquecimento global em curso tende a intensificar o fenômeno, resultando em alterações de temperatura mais extremas.
As arboviroses, que incluem dengue, zika, chikungunya, febre Oropouche e outras, são uma das principais preocupações dos especialistas diante de um El Niño. O calor, as mudanças no padrão de chuvas e os períodos de seca criam condições ideais para a proliferação de mosquitos como o Aedes aegypti, transmissor da dengue, e o mosquito-palha, responsável pela Oropouche.
Segundo o Ministério da Saúde, durante períodos de El Niño, há um aumento na infestação por larvas do Aedes, especialmente em regiões com temperaturas acima de 23,3°C e precipitações superiores a 153 milímetros.
As temperaturas mais altas favorecem o desenvolvimento dos ovos e larvas. Ao mesmo tempo, períodos prolongados de seca seguidos por chuvas aumentam o acúmulo de água parada, ideal para a reprodução dessa espécie. O aquecimento global facilita a sobrevivência e reprodução do mosquito em regiões anteriormente consideradas frias, como o sul do Brasil, aumentando seu espalhamento.
Além disso, há outras preocupações em relação à dengue, especialmente. Em 2024, após um ciclo de El Niño iniciado no ano anterior, o Brasil registrou a maior epidemia de dengue da sua história. Embora as taxas gerais de casos estejam menores atualmente, os especialistas estão atentos ao avanço do sorotipo 3 da doença.
A dengue possui quatro sorotipos, e quem já teve a doença por um deles fica protegido contra esse tipo, mas não necessariamente contra os outros. Isso significa que uma pessoa pode ter dengue até quatro vezes.
O sorotipo 3, que circulou pouco no Brasil nas últimas décadas, está reaparecendo. Isso significa que, embora ele esteja presente, grande parte da população ainda não tem imunidade contra ele. A combinação de um “super” El Niño com a maior circulação do dengue 3 pode representar um risco significativo. “Se tivermos um ‘super’ El Niño associado à maior circulação do dengue 3, nosso temor é que o país enfrente uma grande epidemia”, alerta Julio.
A maior revisão já feita sobre a interação entre clima e doenças cardiovasculares mostrou que eventos extremos, como tempestades tropicais, furacões e ciclones, estão associados ao aumento do risco cardiovascular, que persiste por meses após o mau tempo. Outro estudo, publicado no periódico da Associação Americana do Coração, revelou que tanto o calor quanto a umidade excessiva podem aumentar a incidência de problemas cardíacos, especialmente em populações vulneráveis.
Portanto, é fundamental que a população esteja atenta às previsões climáticas e busque informações sobre como se proteger durante esses períodos críticos. A conscientização e a preparação são essenciais para mitigar os impactos negativos na saúde pública.
Fonte: saude.abril.com.br
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