A morte de uma pessoa devido a doenças altamente contagiosas pode transformar velórios e enterros em processos que exigem cuidados sanitários rigorosos. Quando se trata de vírus como Ebola, Marburg, coronavírus e até raiva humana, o corpo pode continuar a oferecer risco de transmissão por um certo período, especialmente através do contato com sangue e secreções. Essa realidade se torna ainda mais evidente em situações de surtos, onde a manipulação inadequada do corpo pode levar à disseminação de infecções.
enterros: cenário e impactos
O impacto de surtos de doenças contagiosas
O tema ganhou atenção internacional durante surtos de Ebola em países africanos, onde autoridades de saúde notaram que muitos casos de transmissão estavam associados ao preparo do corpo e aos rituais funerários tradicionais. Nesses rituais, familiares costumam tocar, beijar e lavar o corpo antes do sepultamento, o que aumenta o risco de contaminação.
Protocolos de segurança e tipos de vírus
A infectologista Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio Libanês, explica que a necessidade de protocolos especiais depende do tipo de agente infeccioso e da forma como a doença se transmite. Algumas doenças, como HIV e hepatites B e C, apresentam um risco muito baixo de transmissão após a morte. Em contrapartida, vírus respiratórios, como influenza e Covid-19, podem ser transmitidos se secreções contaminadas entrarem em contato com mucosas de outra pessoa.
Os casos mais perigosos envolvem febres hemorrágicas, como Ebola e Marburg. Estudos indicam que um único sepultamento realizado sem os protocolos adequados pode transmitir Ebola para cerca de três pessoas. Mesmo após a morte, muitos vírus permanecem ativos no organismo por um período, e esse tempo varia conforme o tipo de vírus, a temperatura do ambiente e as condições do corpo.
Medidas rigorosas em hospitais e laboratórios
Os cuidados se intensificam em hospitais, institutos médicos legais e laboratórios de patologia. Durante necropsias, o principal risco está na liberação de aerossóis a partir dos pulmões e no contato direto com sangue e secreções. Para garantir a segurança das equipes, são utilizadas máscaras N-95, aventais impermeáveis, proteção ocular e luvas que cobrem todo o braço.
Nos laboratórios, o risco é geralmente menor, pois a maior parte do material analisado é conservada em formol, uma substância que reduz a viabilidade de muitos agentes infecciosos. No entanto, peças sem a devida fixação podem expor os profissionais ao contato com sangue fresco, aumentando o risco de contaminação.
Cuidados na liberação de corpos para funerárias
Quando a morte ocorre em ambiente hospitalar, uma série de medidas é adotada antes da liberação do corpo para a funerária. Entre os procedimentos comuns estão o tamponamento de regiões por onde secreções podem escapar, como nariz, orelhas, ânus e uretra, utilizando algodão ou silicone. Em casos de maior risco, o corpo pode ser colocado em sacos lacrados antes de ser acomodado no caixão.
Durante a pandemia de Covid-19, o uso de dois sacos impermeáveis lacrados e caixões fechados tornou-se comum, além de velórios mais rápidos e com restrição de público. Apesar das preocupações, especialistas afirmam que o risco para familiares tende a ser baixo quando o corpo é preparado adequadamente e as recomendações sanitárias são seguidas.
Desmistificando mitos sobre a transmissão pós-morte
Um mito comum é a ideia de que um corpo continua a transmitir doenças indefinidamente após a morte. Mirian esclarece que, com o passar do tempo, os tecidos perdem a viabilidade e muitos microrganismos também perdem a capacidade de sobrevivência. Contudo, autoridades de saúde mantêm protocolos específicos para minimizar qualquer possibilidade de disseminação, especialmente durante surtos e epidemias.
Os protocolos funerários visam equilibrar a segurança sanitária com o respeito aos rituais religiosos e culturais das famílias. Mesmo em casos graves, como Ebola e Marburg, a Organização Mundial da Saúde recomenda que as famílias tenham a oportunidade de se despedir do ente querido, desde que as medidas de proteção sejam respeitadas.
Em suma, a implementação de enterros seguros e o cumprimento rigoroso de protocolos podem ajudar a conter surtos infecciosos, especialmente nas febres hemorrágicas, garantindo a segurança da comunidade e o respeito às tradições familiares.
Fonte: metropoles.com