Recentemente, surtos de doenças como o ebola e hantavírus reacenderam uma questão crucial: quanto tempo a ciência levaria para desenvolver uma vacina em caso de uma nova pandemia? Essa dúvida é compreensível, especialmente após a experiência vivida durante a pandemia de Covid-19.
O tempo de desenvolvimento de vacinas
O tempo necessário para criar uma vacina pode variar significativamente, dependendo de diversos fatores, como o comportamento do vírus, a tecnologia disponível e a mobilização internacional. Em condições normais, o desenvolvimento de uma vacina leva de cinco a dez anos. No entanto, em situações de emergência sanitária, esse prazo pode ser reduzido para cerca de um a dois anos.
Fases do desenvolvimento da vacina
De acordo com Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o processo de desenvolvimento de vacinas começa muito antes dos testes em humanos. Inicialmente, os pesquisadores precisam entender como o vírus atua no organismo e identificar quais partes podem ser neutralizadas pelo sistema imunológico.
Após essa fase inicial, são realizados testes pré-clínicos em animais para avaliar a segurança e a resposta imunológica. Somente após esses testes é que a vacina avança para as três fases de estudos clínicos em humanos:
- Fase 1: envolve um pequeno grupo de voluntários e avalia segurança e dosagem.
- Fase 2: aumenta o número de participantes e analisa a eficácia.
- Fase 3: reúne milhares de pessoas e exige um acompanhamento mais longo para confirmar proteção e possíveis efeitos adversos.
Mayra ressalta que cada fase depende do sucesso da anterior, e que existem protocolos éticos e avaliações regulatórias que podem prolongar o processo.
Aceleração durante a pandemia de Covid-19
Durante a pandemia de Covid-19, o desenvolvimento das vacinas ocorreu em tempo recorde, gerando dúvidas sobre a segurança dos imunizantes. No entanto, especialistas garantem que nenhuma etapa foi pulada. O sanitarista Jonas Lotufo Brant, professor da Universidade de Brasília (UnB), explica que a velocidade foi possível devido a pesquisas prévias sobre coronavírus e a uma mobilização internacional sem precedentes.
Governos, universidades, laboratórios e agências regulatórias trabalharam de forma integrada, com financiamento elevado e rápido compartilhamento de informações, o que acelerou a produção de dados científicos e reduziu intervalos burocráticos.
Desafios para novas vacinas
Nem todos os vírus permitem uma resposta rápida da ciência. Doenças como hantavírus apresentam desafios, pois os surtos são geralmente pequenos e esporádicos. O mesmo se aplica ao ebola, que teve surtos menores antes do grande surto na África Ocidental entre 2014 e 2016, que possibilitou acelerar os testes de vacinas já em estudo.
Além disso, a capacidade de detectar rapidamente novas doenças é crucial. Quanto mais cedo um surto é identificado, maiores são as chances de conter a transmissão enquanto vacinas e tratamentos estão sendo desenvolvidos.
O legado da Covid-19 e a vulnerabilidade global
Os especialistas afirmam que a experiência da Covid-19 deixou um legado importante na saúde global, especialmente em vigilância epidemiológica e tecnologia de vacinas. No entanto, o mundo continua vulnerável a novas epidemias, especialmente em regiões com infraestrutura sanitária precária e intensa interação entre humanos e animais.
Para Brant, é fundamental fortalecer os sistemas de vigilância em diferentes países, além de investir em laboratórios e pesquisa científica. Isso ajudará a garantir uma resposta mais rápida e eficaz em futuras crises de saúde.
Fonte: metropoles.com