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Quando uma criança pede um biscoito no supermercado ou insiste em doces, enquanto rejeita legumes, é comum que essa cena desperte julgamentos. Muitas vezes, as famílias, especialmente as mães, são culpabilizadas por essas escolhas alimentares. No entanto, um estudo recente do Instituto Pensi revela que a alimentação infantil é moldada por uma série de fatores que vão além do que é oferecido em casa.

O estudo e seus achados

A pesquisa, intitulada “Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável”, entrevistou 142 pessoas em cinco grandes centros urbanos do Brasil. Os resultados mostram que a alimentação das crianças não é apenas uma questão de preferências pessoais, mas sim o resultado de um complexo conjunto de fatores, incluindo:

  • Preço dos alimentos;
  • Jornada de trabalho dos responsáveis;
  • Ambiente alimentar disponível;
  • Tempo de exposição a telas;
  • Pressão social sobre as crianças.

Esses elementos se entrelaçam nas escolhas diárias das famílias, revelando que, embora os pais saibam o que é uma alimentação saudável, as condições práticas muitas vezes dificultam a implementação desse conhecimento.

A pesquisa foi idealizada pelo Pacto Contra a Fome, com apoio da Food and Land Use Coalition (FOLU) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS). Os grupos focais foram realizados entre setembro e outubro de 2025 em São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia, envolvendo famílias de diferentes classes sociais.

Desafios da alimentação saudável

Nos grupos entrevistados, a alimentação saudável foi associada a alimentos caseiros, como arroz, feijão, frutas e legumes. Por outro lado, produtos como refrigerantes e fast food foram reconhecidos como menos saudáveis. No entanto, a distância entre saber o que é saudável e conseguir implementar isso no dia a dia é um desafio. Fatores como cansaço, preço e a aceitação das crianças influenciam essas escolhas.

As crianças, muitas vezes, tornam-se uma força organizadora na hora das compras. Os pais tentam garantir refeições balanceadas, mas enfrentam dificuldades diante de pedidos por marcas específicas e alimentos que aparecem em vídeos na internet. Essa influência é significativa: um estudo publicado no JAMA Pediatrics demonstrou que o marketing de alimentos está associado ao aumento do consumo de produtos não saudáveis entre crianças e adolescentes.

O papel da escola na alimentação infantil

A escola surge como um ambiente crucial para a alimentação das crianças. Para muitas famílias, especialmente aquelas de baixa renda, a alimentação escolar é vista como uma referência de refeição equilibrada. Já nas famílias de renda mais alta, a preocupação se concentra na qualidade dos lanches e refeições oferecidos nas cantinas.

Em 2025, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou diretrizes para reduzir a compra de alimentos ultraprocessados nas escolas, aumentando a oferta de alimentos in natura. Essa mudança é essencial, pois a escola não deve ser apenas um local de aprendizado sobre alimentação saudável, mas também um ambiente que promova práticas alimentares saudáveis.

Desigualdades e desafios na alimentação infantil

Os grupos de pesquisa identificaram desigualdades na alimentação infantil com base na renda e na infraestrutura familiar. Famílias de maior renda têm mais acesso a alimentos frescos e saudáveis, enquanto aquelas de menor renda enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação básica. O IBGE relatou que a insegurança alimentar grave afetou 3,2% dos domicílios brasileiros em 2024, o que leva muitas famílias a optarem por alimentos ultraprocessados, que são mais baratos e duráveis.

Os relatos dos pais refletem uma preocupação em oferecer alimentos saudáveis, mas essa intenção é frequentemente ofuscada pela rotina que favorece a praticidade dos ultraprocessados. A carga de trabalho das mães e cuidadores, que muitas vezes é maior, também contribui para essa situação.

A responsabilidade coletiva pela alimentação infantil

É fundamental entender que a alimentação das crianças não é uma responsabilidade exclusiva dos pais. Ela é influenciada por fatores sociais, econômicos e culturais, que incluem renda, mercado, escola e as condições de vida. Para promover uma alimentação mais saudável entre as crianças, é necessário tratar essa questão como uma responsabilidade coletiva, que envolve a sociedade como um todo.

Proteger a alimentação infantil exige uma combinação de medidas que vão além do âmbito familiar. Precisamos repensar como as escolhas alimentares são moldadas e trabalhar para garantir que todas as crianças tenham acesso a uma alimentação saudável e equilibrada.

Fonte: metropoles.com

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